25/02/2008



Gula, preguiça e glamour em Montevideo

Pela primeira vez foi muito fácil chegar numa capital. Logo na rodoviária ficamos impressionados com a enorme variedade de serviços oferecidos e até mesmo com a simpática estrutura do local, muito diferente de todos os terminais por onde passamos. Estava tudo absolutamente limpo e encontramos rapidamente um escritório do Ministério de Turismo, onde pudemos facilmente reservar o hotel sem qualquer custo. Em seguida, ao caminharmos um pouco vimos que havia de tudo, lanchonetes, internet, lojinhas, inclusive uma sofisticada que vendia mochilões e barracas de camping etc Enfim, sentimos que estávamos no “primeiro mundo”. Pegamos um táxi muito confortável e depois percebemos que era especial, mas o preço não era tão diferente dos comuns. No caminho pudemos observar a bonita Montevideo e quando descemos em frente ao hotel, um imenso casarão antigo, ficamos mais surpresos. Logo na entrada, tinha tapete vermelho e ao abrirmos uma porta imensa nos deparamos com uma linda escadaria toda em mármore, um espelho antigo ao final dela e um pé direito que mal podíamos alcançar de tão alto. Havia muita luz natural, o que deixava ainda mais lindo o lugar. Ficamos aliviados, afinal tinha sido uma indicação do funcionário que nos ajudou a fazer a reserva, mas não constava no nosso guia. Tivemos a sensação de estar entrando num belo teatro desses mais antigos. Assim que preenchemos o cadastro nos deram uma chave dourada de uns 20 cm. Não preciso nem falar que a porta era gigante, devia ter uns cinco metros e o pé direito do quarto uns sete. O banheiro era um capítulo `a parte, comprido e com antigos azulejos coloniais em tons de azul e branco, muito bonito. Tudo super bem conservado. Fomos conhecer o Mercado del Puerto, famoso pelas suas carnes e peixes deliciosos. E realmente foi uma das melhores refeições da viagem. João se esbaldou, comeu peixe, carne e bastante batata cozida. Depois explorou todos os cantos e por onde passava chamava a atenção de todos. O horário de funcionamento é até `as 18 horas e uma dica é chegar no meio da tarde para almoçar, porque mais cedo fica muito cheio. São muitos restaurantes, dentro e fora e todos apetitosos. Esse dia foi completamente dedicado ao prazer de comer. Assim que deixamos o sofisticado mercado, tomamos um sorvete durante as andanças pela cidade velha e na seqüência entramos num supermercado para comprar o jantar. Quando nos demos conta disso rimos muito... Quanta gulodice!!!! O João adorou o carrinho do mercado, onde ficou sentado durante um bom tempo observando tudo; nada lhe escapava ao olhar, tantas cores e informações. Como os corredores eram bem largos ainda pude girar seu carrinho numa velocidade tal que ele só dava risadas. Todos a nossa volta nos olhavam um tanto assustados. Enquanto o Ferdinando esperava uma enorme fila na sessão dos frios eu e João brincávamos de rodar. Pareciamos duas crianças... Depois ele se cansou e inevitavelmente teve que ir para o chão. Nessa hora quase enlouqueci. Ele, agora já correndo, saiu desvairado pelos corredores pegando tudo, derrubando os produtos das prateleiras e tirando tudo do lugar. Foram apenas alguns minutos, mas o estrago foi grande... Percebemos que estava na hora de sair correndo dali, seu tempo comportado tinha vencido. Mesmo assim o Fernando ainda encontrou uma barraca de camping para duas pessoas por apenas R$ 30,00 e decidiu levar, apesar da nossa viagem já estar quase no fim (na verdade, ele pesquisou durante todo o caminho e no Uruguai achamos pelo melhor preço). Eu e João brincamos tanto que quando chegamos ao caixa vi que tinha esquecido de pesar as frutas e o tomate... Que vergonha, pois a simpática atendente saiu do seu banco e foi ela mesma pesar... Enfim, voltamos para o nosso hotel, preparamos vários sandwíches, assistimos a um filme depois que o João dormiu e aproveitamos mais um pouco a preguiça daquele dia de puro descanso e comilança.

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27/02/2008


Despedidas

Nossa despedida do Uruguai foi meio rápida, estava chovendo muito e então antecipamos nossa volta para Buenos Aires. Em nossa última noite em Colônia, ficamos hospedados em uma garagem adaptada para apartamento no meio do centro histórico. Saímos de noite para jantar e assistimos uma apresentação de um grupo de candombe. O João ficou impressionado quando viu o fogo improvisado na calçada para esticar o couro dos tambores. Depois, quando começaram a tocar, ainda sob a luz da fogueira, ficou quietinho de pé assistindo tudo hipnotizado e até dançou. Eram uns doze tambores ritmados, que faziam a rua de pedras estremecer. Ainda seguimos o grupo um tempo pelas ruas coloniais, uma verdadeira viagem ao tempo dos escravos africanos. O Rio de la Plata estava revolto por causa da chuva e do vento, mas dentro do moderno catamarã quase não se sentia o balanço das ondas. Linda a vista de Buenos Aires na chegada e do lado de cá fazia um sol escaldante. Tomamos um táxi fora do porto, pois os que ficam parados na saída cobram muito caro, e seguimos para San Telmo, nosso bairro preferido na capital portenha. Mudamos de hotel, agora ficamos num quarto com sacada, de onde se tem uma vista impagável do bairro. A sacada é perfeita para escrever e tomar café da manhã. Perambulamos por La Boca, Monserrat, Recoleta, Vila Crespo e as várias partes de Palermo(Soho, Viejo, Hollywood e Alto). Enfim, zanzamos muito e acabamos descansando no gramado do lindo Jardim Botânico, onde o João caminhou quilômetros e perseguiu os gatos. Nossa despedida da terra de Maradona será também o fim da viagem, em breve voltaremos para casa depois de quase cinco meses rodando a américa do sul. Vamos ter que nos readaptar ao nosso cotidiano paulista, trabalhar, organizar a vida. João vai entrar na escola, uma nova fase em sua vida. Aos poucos vamos nos despedindo da estrada, voltando ao nosso dia a dia, mas já pensando em novos roteiros da próxima viagem. ( ...continua... )

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29/02/2008



Hotéis, hospedajes, hostels, residenciais, alojamientos, hostals, guesthouse, campings, hosterías, posadas, bed & breakfast, cabañas, lodges, albergues...


Numa viagem independente nem sempre se sabe que locais vão servir de abrigo. Quando se está na estrada, há uma infinidade de sinônimos para hospedagem. O que mais importa para nós é nos sentir bem, independente de quantas estrelas tenha o hotel. Muitas vezes perdemos bastante tempo procurando o hotel ideal. Em outras, quando o cansaço é grande, se opta pelo primeiro que aparece (nessas vezes a probabilidade de se hospedar em espeluncas aumenta, cuidado!!). Agora no fim da viagem, me passa pela cabeça vários lugares que nos hospedamos. Nem vou falar dos restaurantes, seria um capitulo `a parte. Cada lugar com seus personagens típicos, gente de todo tipo, muitas figuras bizarras. Alguns eram os próprios donos do estabelecimento, outros os empregados e até os agregados. Todos que me recordo eram pessoas bem interessantes, até os mais mal- humorados. Queria tê-los fotografado, mas essa idéia veio um pouco atrasada. Seria ótimo ter portraits de todos esses personagens de nossa viagem, ambientados em seus respectivos hotéis. Fica para a próxima, as imagens ficarão na minha memória. Tentarei escrever um pouco sobre eles seguindo o roteiro de nossa viagem. Só os curiosos nomes dos hotéis já são dignos de serem mencionados. Começo recordando do australiano e seu cachorro (que tinha um sofá reservado no hall e até entrou no blog numa foto com o João) do La Casa Roja de Santiago do Chile. Nunca esquecerei o simpático casal de velhinhos e suas salas de paredes cor de rosa, cheias de bibelôs, donos do Casa Familiar Carrasco, em Valparaiso. A melhor cozinha sem dúvida foi a do Residencial Jofré, muito bem equipada e cheia de janelas. Ficava ao lado de um jardim lindo lotado de flores, onde o João brincou muito. O Sr. Jofré foi nos recepcionar na rodoviária `as 6 horas da matina. Tenho que citar o Hotel Amazonas, onde não ficamos em Copiapó, porque não havia ninguém na recepção e então seguimos direto até San Pedro do Atacama, onde o quase índio Mário nos levou para o seu Hostal Casa Adobe. Ficamos amigos e o João adorou todos os bichos e os banhos de mangueira no quintal para aliviar o calor do deserto. Em nossa aventura de três dias de jipe pelo altiplano e salar boliviano nos hospedamos em um albergue horrível sem nome a quase cinco mil metros de altitude e sete graus negativos , onde fomos salvos pelo poderoso chá de folha de coca. Na segunda noite conseguimos descansar na Hospedaria Colque, que era bem melhor (e mais quentinho!). Em Uyuni ficamos no barato Hotel Sajama, gerenciado por uma senhora chola muito carrancuda, mas que ficou encantada com o João e até nos deu alguns sorrisos. Em Oruro, depois de passar a noite no trem, nos jogamos no primeiro hotel que vimos. Na estação só atravessamos a rua e desmaiamos em uma suíte do sinistro Alojamiento San Juan de Dios. Em La Paz, depois de caminhar com os mochilões por muitos quarteirões não conseguimos vaga no Hostal Cactus, mesmo com reserva. Chegamos bufando no Hotel Glória, no alto da calle Illampu, que nos acolheu com muita simpatia. Os recepcionistas ficaram amigos do João. Passei mal uma semana neste hotel, minhas recordações não são das melhores. Suas escadarias foram muito exploradas pelo João, ele subia até o quinto andar! Em Coroico tivemos um merecido descanso no maravilhoso flower power e ecologicamente correto Hostal Sol y Luna, onde ficamos em um chalé que parecia um sítio. O dono era uma figura, desses gringos que usam camisas floridas e chapéus de palha. Ali o João se esbaldou com os jardins, piscinas, balanços, redes, parquinhos e até uma casa na árvore. No lago Titicaca ficamos no Alojamiento Emperador em Copacabana, que de imperador mesmo não tinha nada. Mas conseguimos uma suíte na parte nova depois de negociar com a chola dona do local. Ela até nos deu um desconto na lavagem de roupa. Navegamos até a Isla del Sol e ficamos num ótimo quarto do Hosteria Las Islas, com varanda e uma vista maravilhosa do lago, com picos nevados ao fundo. Como nada é perfeito tinha o pior chuveiro de todos(tipo pinga pinga) e uma noite acordamos no meio da madrugada com uma tempestade de granizo fortíssima e o chão do quarto forrado com pedras de gelo que vazaram pela clarabóia. No Peru nossa primeira parada foi na Hospedaje Casa del Abuelo, em Puno. Um casarão colonial lindo ao lado da plaza de armas onde o dono era um peruano todo articulado; nos deu várias dicas de passeios e roteiros. Andrés ficou fã do João e preparava um café da manhã especial para o pequeno. Na bela Cusco conseguimos fugir das altas tarifas dos hotéis da cidade ficando no Sambleño Hospedaje, um casarão de três andares com restaurante, jardim interno e bar descolado. Os rapazes de lá só chamavam o João de Juanito, fizeram a maior festa com ele. Antes e depois de subir para Machu Pichu dormimos no Hotel Inti Wasi em Águas Calientes. Numa das noites tive que reclamar da algazarra no quarto ao lado, onde havia uma festa de despedida de solteiro regada a pisco e cerveja. No Vale Sagrado ficamos em Urubamba, no Hotel Las Chullpas. Dormimos como pedras depois das caminhadas em Machu Pichu. Nossa escala em Abancay foi uma parada de emergência, pois estávamos enjoados, quase vomitando com as curvas da estrada sinuosa das montanhas. Foi um alívio dormir algumas horas no Hotel Confort e acalmar os estômagos. No litoral passamos direto por Pisco porque a cidade estava arrasada por um forte terremoto recente. Emendamos até Paracas e nos hospedamos no El Amigo, na quadra da praia. Ali nos esbaldamos de tanto comer ceviche e o João fez muitas amizades. Na capital, Lima, optamos pelo sofisticado bairro de Miraflores. Depois de ver mais de seis hotéis conseguimos uma suíte mínima bem boa, no ótimo Hostel Tinkus, gerenciado por uma senhora, sua filha e suas duas netas. Três gerações diferentes e todas ficaram fãs do João e do blog. Na costa norte paramos em Huanchaco para ver os caballitos de totora e Chan Chan. Um simpático casal nos recebeu em sua casa adaptada, a Hospedaje Los Fícus. Eles estavam com as duas netinhas e o João adorou os brinquedos espalhados pela casa. Em Máncora nosso chalé ficava praticamente na areia da praia. Passamos o natal no Hospedaje Sol y Mar, de frente para o mar e com uma caprichada ceia de frutas e vinho. No Equador conhecemos o Don Diego no terminal e ele nos levou para o seu Hotel El Capitólio, um lugar tranqüilo pertinho do centro histórico de Cuenca. Ficamos amigos e como também tinha filhos pequenos, nos indicou seu pediatra para tratar uma alergia do João. Nosso reveillon foi em Riobamba, ao lado do majestoso vulcão Chimborazo, onde o João nos deu um baita susto despencando de cima da cama do Hostal Oásis. O casal de donos, o seu filho e o cão francês adotado deles foram muito legais conosco. Nos deram várias caronas no seu carro. Em Baños, por pouco não presenciamos a erupção do vulcão Tungurahua. Fugimos dos hostels lotados de mochileiros e ficamos no ótimo Hotel El Éden onde o João grudou na bicicleta do filho da proprietária. Em Latacunga tomamos muitos chás com a senhora Viola, libanesa que amou o João e adivinhou que a Ana também tinha um pouco de sangue libanês. Nos serviu todos os cafés da manhã como cortesia do seu acolhedor Hotel Central. Em Zumbahua, durante a dura viagem do Quilotoa Loop, ficamos no Hospedaje El Condor. As paredes da nossa suíte eram de vidro espelhado, me senti dentro de um aquário. As donas índias prepararam uma sopa de quinua especial para a gente. Depois de sacolejar pelas estradas de terra num ônibus lotado (daqueles que levam gente, porco, galinha...) chegamos em Chugchillán e paramos no confortável Hostal Mama Hilda, onde saboreamos os deliciosos quitutes preparados pela própria. Ficamos amigos e fãs dessa simpática senhora e do seu marido. O João descolou uma babá, a cozinheira, que ficou apaixonada. Na surpreendente Quito escolhemos o Chicago Hostal , onde tomávamos café da manhã num terraço com vista linda para a cidade velha. Cruzamos para o hemisfério norte e, já na Colômbia fizemos escala em Ipiales, para dormir no Hotel Don Lucho, onde descobrimos que é comum dinheiro falsificado (algumas notas estavam no nosso bolso...). Enguiçamos na estrada, mas conseguimos chegar em Popayán. Reclamamos muito da água fria do Hotel Tierradentro, o sistema de aquecimento estava em pane, mas sobrevivemos. Fomos compensados com uma linda queima de fogos de artifícios, da festa de aniversario da cidade, bem em frente `a nossa janela. O João pirou com a explosão de cores e formas. Em Cali fomos surpreendidos pela visita de baratas e uma inundação do quarto, num dos hotéis mais caros da viagem, o metido a besta Hotel Camino Real. Voamos para a maravilhosa Cartagena de Indias e buscamos abrigo no bonito Hotel La Casona. O João se invocou com os papagaios e araras. Recuperamos as forças em Santa Marta no Hotel La Castellana, que estava lotado de turistas farofeiros esperando o carnaval. Nos mandamos cedo para a paradisíaca Taganga e no pequeno vilarejo encontrei o recém-inaugurado Hotel Tsunami. Ficamos amigos do dono, um chef bonachão de New Orleans, que nos preparou um jantar divino. Arriscamos acampar no pitoresco e selvagem parque nacional Tayrona e deu certo! O João se sentiu um Tarzan em nossa barraca no coqueiral de frente para o encontro do rio com o mar no Camping Bukaru. Ficou amigo de uns indiozinhos e tomou seu primeiro banho de lua. Na Venezuela nossa primeira parada foi em Maracaibo, cidade grande, terra do petróleo, onde pernoitamos no Hotel Unión. Seguimos rápido para Coro e depois de uma caminhada pelo centro histórico, tomamos um táxi para Adícora. Na viagem de uma hora, curtimos muita salsa aos berros no carrão de um motorista gente boa que nos levou para o Hotel Buena Playa. Continuamos conhecendo paraísos do mar do Caribe. Em Tucacas ficamos na Posada Amigos del Mar, gerenciada por dois divertidos mergulhadores hippies belgas. Chegamos `a capital Caracas em pleno carnaval. Uma suíte gigante, com uma cama king size do Hotel La Mirage nos serviu de pouso durante o feriado prolongado. A recepcionista mais emburrada de todas, talvez por trabalhar naquela data. Voamos para Buenos Aires, cruzando todo o continente, e depois de uma escala em São Paulo, pousamos em Ezeiza. Fomos direto para San Telmo onde nos esperava o único quarto duplo do Hostel Nomade, um achado bem no coração do bairro. Fizemos muitos amigos nesse hostel, que parecia uma Babel, com gente do mundo todo, e até tivemos uma canja de uma cantora francesa no enorme terraço. O João ficou popular entre os mochileiros. Seguimos para Tigre e ficamos no Hotel Familiar, ao lado do canal. Nosso quarto parecia uma cabine de veleiro e ainda tinha teto solar. Deixamos a terra do tango num catamarã e depois de atravessar o Rio da Prata paramos na bucólica cidade de Carmelo. Perdemos nosso ônibus e passamos nossa primeira noite no Uruguai, no Hotel Centro, estrategicamente localizado, para nossa sorte, ao lado de uma cervejaria. Chegamos `a inesquecível Colônia del Sacramento com um sol de rachar, bem no fim de semana, com os hotéis lotados. Graças `a boa vontade da gerente Suzana arrumamos um quarto no ótimo Albergue El Español. Nos sentimos em casa e o João ficou amigo de todos os funcionários. Rumamos para Montevideo onde nos indicaram o Hotel Florida, um casarão colonial secular. Nosso quarto tinha o pé direito de uns sete metros e era enorme, parecia um palácio. Na volta `a Colônia nos hospedamos, acreditem, em uma garagem. Era um apartamento adaptado, de frente para o majestoso Rio da Prata, bem no centro histórico da cidade. Lá a diversão do João era fugir para a rua de paralelepípedos, já que deixávamos a porta aberta em função do calor. Voltamos saudosos para a Argentina. Mi Buenos Aires querido! Nem tivemos dúvida ao eleger San Telmo novamente, esse bairro virou nossa casa por muitos dias. Nos apaixonamos por esse lugar. Dessa vez nos hospedamos no terceiro andar do Hotel Bolívar para Pasajeros, num quarto enorme, com uma sacada e vista maravilhosa de onde escrevo esse relato com jeito de retrospectiva (apesar de detestar retrospectivas...) de nossa viagem. Aqui é o nosso último hotel dessa empreitada, daqui seguiremos para o conforto do nosso lar, onde o nosso pequeno aventureiro terá novos desafios. Fim de viagem. Não tive como reduzir o tamanho desse relato; afinal foram quase cinco meses dormindo em lugares diferentes. Cinco meses em que o nosso amado João perdeu o jeitão de bebê e se tornou quase um menino. Essa viagem ficará guardada em algum canto em sua memória, algum dia, em algum dejà vu, se lembrará de algo. Por via das dúvidas, poderá contar com as milhares de fotos.

Ps: O post final deste blog ficará a cargo da Ana, não sou muito de despedidas, enfim, até a próxima( espero que breve!!!).


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01/03/2008


Hasta la vista, baby...

São quatro horas da manhã e a cabeça não pára. Preciso escrever para tentar colocar alguma ordem e tranqüilidade nas idéias. Escrevo de Buenos Aires, uma cidade tão marcante, enquanto os meninos dormem. Dormimos com a varanda aberta, pois o calor é forte e a rua ainda está bastante viva. Terminar a nossa empreitada por aqui não podia ser melhor e agora confesso estar com um certo medo de voltar a enfrentar a dura rotina de viver em São Paulo. Apesar de termos grandes amigos e uma casa gostosa, com um clima bastante agradável, sabemos que é uma cidade bem difícil, especialmente quando se tem filhos. Por outro lado, novas perspectivas estão se mostrando para esse ano de 2008 e para a nossa estória. Só o fato de termos conseguido concretizar um antigo projeto já foi maravilhoso o suficiente para termos força e confiança de acreditar que os sonhos são possíveis. E falo isso sem muita demagogia ou idealismo, afinal quem me conhece sabe que sou um tanto prática e racional. Mas, acreditem, viajar com o nosso bebê foi a melhor coisa que podia ter nos acontecido. É fácil! Eles se adaptam muito bem em situações muito diversas. Claro que durante o caminho tivemos alguns sustos, mas poucos, que posso contar em uma única mão. Eu que gastei umas duas vidas... rrrrsssss No quase atropelo pelo jet ski no Caribe e depois no Uruguai, no dia em que alugamos a scooter(não contamos esse episódio para não preocupar os avós). Eu dirigi sozinha a motoca algumas vezes, foi tudo ótimo, até eu atropelar uma árvore e levar um tombo e vários machucados... Nada grave, mas o suficiente para o Fernando ficar preocupado e o João bastante assustado e chorar muito. Por sorte e mais uma vez proteção divina o meu alvo foi uma árvore, que me impediu de atingir uma família que descansava tranquilamente no gramado, numa tarde de sol, em frente a uma bonita praia de Colônia del Sacramento. E por uma intuição iluminada o Fernando não posicionou a motoca para uma movimentada avenida que havia em frente. Foi tudo muito rápido, ao dar partida acelerei sem nenhuma noção da velocidade que se podia alcançar... Enfim, não passou de mais um susto e muitos arranhões. Eu também não entendi o que aconteceu, afinal já tinha guiado antes numa boa, mas ao perceber o choro forte do João levantei correndo e rindo, de nervoso talvez, para ele ver que eu estava bem. O Ferdinando e a família que estava em frente não entenderam nada. A família foi logo se afastando e os “meninos” vieram rapidamente me ajudar. Mais uma estória que agora vira piada durante esse tempo na estrada. O que mais importa é que conseguimos e agradecemos muito por isso, diariamente. Foi bem difícil tomar a decisão de partir rumo à realização de um antigo sonho. Ainda mais com o nosso pequeno tripulante. E agora que já estamos em casa, no nosso conforto, percebo como foi maravilhosa a coragem que tivemos no momento em que embarcamos para Santiago sem muito roteiro, programações, reservas ou muito tempo estipulado. Pudemos viver talvez a experiência mais rica em família, juntos, enfrentando desafios diariamente, aprendendo com eles, percebendo a sabedoria do João ao reagir com muito bom humor diante das mais variadas dificuldades, tendo fé e acreditando que é realmente possível concretizar objetivos que muitas vezes se perdem no meio da correria e da eterna pressa que é inerente às grandes cidades e principalmente a São Paulo, onde moramos há oito anos. Em todo esse tempo dividimos a imensa vontade de viajar por aí, pela América do Sul e por outros continentes. Quando o João nasceu coincidiu, pela primeira vez, de estarmos os dois mais disponíveis, já que estávamos trabalhando como free-lancers. Ao mesmo tempo havia mais um integrante na bagagem e talvez um possível complicador - nosso bebê. Pensamos muito, conversamos e ouvimos muito o querido pediatra do João, que sempre insistiu no discurso de que ele era o nosso mais novo companheiro e que ficaria bem onde estivesse desde que tivesse o nosso amor, cuidado e a nossa presença. Ele sempre nos incentivou e nos transmitiu muita segurança. Nada de muitas complicações para lidar com o nosso João; tentava sempre nos mostrar que era simples lidar com esse mundo novo que estávamos aprendendo a conhecer, mesmo no começo, quando ainda era mais difícil decifrar os códigos de comunicação com o nosso pequeno. Além disso, tivemos o enorme apoio dos nossos pais e amigos, que apesar da saudade que já estavam sentindo, nos ajudaram absurdamente e acreditaram na gente, muito importante! As avós Ana Maria e Maria Helena, então, não tenho nem como descrever a imensa doação a que se dispuseram para nos ajudar nos meses em que preparamos a saída de Sampa. As duas moram em outros estados e vieram e amaram o João da forma mais sincera e completa que um neto pode ter. Muito privilégio! E junto a tudo isso tinha o nosso projeto, o sonho, o desafio, a aventura, o desejo, a coragem, a disponibilidade, a confiança, o(s) medo(s), a força..., muitos sentimentos envolvidos. Mas sobretudo a perspectiva de que podia dar certo, a clareza de que o momento era aquele, a nossa união, que equilibrava todas as angústias e ajudava a continuar o movimento e a preparação para ficarmos alguns meses fora. Afinal, nem seria tanto tempo assim, apenas alguns meses... E talvez os melhores da nossa estória em conjunto. É engraçado e já conversamos muito sobre isso – no Brasil os pais param suas vidas depois que os bebês chegam. Se adaptam ao bebê e não vice-versa. Não saem de casa, não viajam, não isso, não aquilo, enfim, acabam boicotando suas próprias vidas. Lógico que a vida muda e tem que mudar depois dos filhos (não estou incentivando a irresponsabilidade). Mas tudo é bem mais simples, complicamos demais... Enfim, não vou entrar em nenhuma discussão, a questão não é essa, mas hoje vejo como nosso filho é feliz, sociável, saudável e simpático (como todos diziam durante a viagem) mesmo sem ter sido submetido a tantas regras, dogmas e procedimentos desnecessários, que estão aí há tantas gerações (liberdade aos bebês!). Durante a viagem confesso que pensei várias vezes em desistir e voltar correndo, principalmente quando enfrentamos dificuldades com a alimentação do João. Fiquei bastante preocupada e questionando se o que estávamos fazendo era correto ou egoísta, mas chego à conclusão que foi muito enriquecedor para todos nós. As adversidades deixaram de ser empecilhos para se transformar em muito aprendizado e, por incrível que pareça, nos fortaleceram. Enfrentamos situações de temperaturas negativas (-8 graus no trajeto do Atacama ao Salar de Uyuni) a quase 40 graus no Caribe, experimentamos comidas as mais diversas, conhecemos pessoas as mais diferentes – costumes e culturas completamente distintos dos nossos, fizemos viagens em todos os meios de transporte possíveis – avião, carro, jipe, ônibus, van, barco, lancha, trem, caminhão etc, passamos por estradas de terra, asfalto, com milhões de curvas, por lugares que não conhecíamos e que tínhamos alguma idéia do que encontraríamos, mas pouca (através do nosso guia de viagem, que foi um excelente parceiro) e, claro, sempre sem reservas em pousadas, hotéis, afinal nosso roteiro foi extremamente flexível. De acordo com o que acontecia alterávamos os caminhos ou não. Ainda poderia listar mil variáveis durante o nosso roteiro, mas o que importa é que mesmo diante de tantos contextos inusitados o nosso João reagiu superbem, se adaptou e com certeza cresceu. Enfim, pode parecer uma tremenda maluquice, mas a questão é que funcionou da melhor forma possível, deu tudo absolutamente certo, graças a Deus, e ao final de tudo vimos como é possível e maravilhoso e rico todo esse conhecimento e toda essa vivência que obtivemos simplesmente porque tivemos coragem de sair. Tenho certeza que esses quatro meses e meio enriqueceram em muito a vida do João, na sua maneira de se comunicar, de se abrir diante de tantas diferenças com uma pureza e inocência características dos bebês, que sequer correm o risco de serem contaminados por preconceitos ou padrões. Sua estória se confunde em muito com a da viagem, afinal seu primeiro ano foi comemorado na Bolívia, seus primeiros passinhos no Peru, seu primeiro banho de chuva no Equador, começou a caminhar mesmo na Colômbia e a primeira vez que andou sozinho pelas calçadas foi em Buenos Aires. Foram oito países durante todos esses meses; rodamos por quase toda a América do Sul. E agora, já em casa, nos resta continuar sonhando com novas possibilidades. Ficaram as estórias e as melhores lembranças. E enfrentamos nesse momento a readaptação à nossa realidade. Sabemos que tem muito a ser construído e com amor fica ainda mais fácil. O João, ao chegar aqui, reconheceu rapidamente seu espaço e ficou superinquieto, redescobrindo todos os cantinhos, seus brinquedos, seu quarto, os móveis, os ambientes. Quase desmontou nosso apartamento em alguns poucos minutos. Ficou elétrico e excitado. Ainda no aeroporto, em Guarulhos, já teve sua primeira bela surpresa – sua avó Maria Helena que saiu do Rio para nos encontrar e buscar. Foi assim na saída e na chegada, difícil ter uma recepção mais especial... Ele ria o tempo todo para ela e observava absolutamente tudo, nada escapava ao seu olhar, acho que estava entendendo que estava de volta à sua cidade. Engraçado... E a partir de agora vai enfrentar uma nova etapa em sua vida – a escola, os novos amigos, estímulos, aprendizados..., aos poucos vai se movimentando e cavando seu próprio espaço, suas escolhas, sua estória. Sei que ainda é cedo, mas sei também, e a cada dia que passa reforça ainda mais a idéia, que ele está aqui para viver sua vida, para o mundo e não para nós, os pais. E a gente vai tentar aprender mais e mais com tudo isso, com as novas fases dele, com essa troca que é tão grande e tão incrível, que me faz questionar quase que diariamente como foi possível gerar um serzinho tão especial e “perfeito”... Como já ouvi sabiamente da Ma, “essa ficha ainda vai continuar caindo por toda a nossa vida”... Mas agora nos resta ter muita fé, mais uma vez, muita paciência e a tranqüilidade de saber que quando estivermos prontos novamente poderemos embarcar em mais uma empreitada. Saibam que viajar pela América do Sul é mais barato que rodar o Brasil ou viver em São Paulo. Por incrível que pareça, gastamos menos para comer, com hospedagens e transportes do que estamos acostumados a pagar aqui. Na verdade, não se precisa de muita coisa para viajar, quase nada, pouca roupa – pois grandes malas só atrapalham e geram mau humor no meio do caminho –, dinheiro suficiente para sobreviver com simplicidade e dignamente, mas sem luxo ou, então, é melhor ir para um resort por aqui – temos tantos, não é mesmo?, e sentimentos como coragem, fé, disposição, improviso..., tudo que já falei anteriormente. Ficamos fora durante quase todo o verão. Estranho pensar que não estivemos presentes em tantas datas importantes nesse fim de ano. Estranho agora pensar na volta, apesar de já estarmos fisicamente aqui. O melhor conselho de uma grande amiga do coração foi estar aberta para tudo que acontecesse pela frente e realmente é um grande desafio, requer muito improviso, mas é o melhor a ser feito quando não se pode ter controle de tudo que acontece. E na verdade, quem tem controle, quando? Foi muito bom também dividir toda essa nossa rica experiência com todos vocês. Muito bom receber tantos comentários lindos de amigos, da nossa família e de tantas pessoas que sequer conhecemos. Saibam que nos ajudou e nos fortaleceu em momentos difíceis. Algumas pessoas nos disseram até que estão querendo viajar com suas crianças depois de ler o blog, que bom! Todos que encontramos pelo caminho foram extremamente solícitos e gentis com o João. Os bebês têm esse poder de encantamento, pois é tanta pureza e doçura que fica difícil resistir... Em todos os menores vilarejos que passamos pudemos comprar frutas para o nosso pequeno e sempre nos ofereciam cuidados especiais para ele, além de termos cozinhado em diversos hostels que ficamos. Claro que não tínhamos o conforto e a estrutura que temos em Sampa, mas não faltou nada para o nosso pequeno viajante. A maior dificuldade que tivemos com ele foi em relação ao interesse por comidas. Ele sempre preferia as mamadas e muitas vezes rejeitava as diversas refeições que oferecíamos. Penso que seja natural essa adaptação na vida desses serzinhos tão pequenos que chegam ao mundo com tanta coisa para aprender e absorver. Sofri um tanto com isso. Mesmo em São Paulo antes de viajarmos já enfrentávamos essa resistência do João, que ora aparece e ora nos surpreende comendo vorazmente... De algum tempo para cá ele tem comido bem melhor, faz todas as refeições e mama normalmente de manhã cedo e à noite antes de dormir. E com isso tem dormido a noite praticamente inteira; acorda para mamar depois de seis de manhã, uma dádiva... Ainda o amamento, agora com um ano e quase quatro meses, mas percebo que o meu leite já não é mais suficiente para satisfazer sua fome há algum tempo e, claro, para as suas necessidades de crescimento. Mas a troca de carinho e amor que temos durante a amamentação é muito única e especial! Estamos vendo dia após dia como ele está crescendo, ficando forte, esperto, bochechudo e amável com todos que encontra pela frente. Aprendemos muito com ele nesses meses. Na verdade, sempre, mas durante essa viagem a troca foi muito intensa e muitas vezes ele que nos impulsionou a seguir em frente, com seu bom humor, sorrisos, olhares doces e abraços deliciosos. Ele sabe também que é um privilégio enorme ter esse tempo disponível com seus pais no seu primeiro ano de vida e retribui o tempo todo. E agora chegou o momento de voltar. Por mais que seja forte a vontade de querer continuar na estrada, explorando tanta coisa que ainda está por vir e acontecer, também sentimos uma forte saudade das nossas raízes, da nossa família, dos amigos, da casa, das plantinhas e, como qualquer pessoa, temos que trabalhar e assumir uma série de compromissos diários. O João vai entrar na escola e sei que será outro momento importante em sua vida, novos amigos, aprendizados, organizações, comida caseira, passeios à pracinha, um ritmo mais normal. E sabemos também que o mais importante foi feito da melhor maneira possível e agora quem sabe novos projetos virão? Estamos nos readaptando à nossa rotina, mas com a cabeça tranqüila por compreender que dedicamos esse tempo para viver juntos, nada muito além disso, viver! Os sonhos continuam... E eu que achava que sonhar era coisa da época de faculdade... Bem, vou ficando por aqui, já é tarde, já escrevi demais, mas antes quero agradecer a todos vocês que “viajaram” com a gente, foram tão carinhosos, escreveram tantas coisas lindas, vibraram, participando de tudo... Vamos ficar com saudade desse blog, um canal de comunicação tão gostoso e direto, mas quem sabe, em breve, vocês não poderão acessar nossa nova expedição por outros cantos??? Afinal, ainda há continentes a serem explorados com o nosso aventureiro João... Aguardem!
Beijo grande e até, Ana Paula, Fernando e João.


Ps: Quem quiser ver mais fotos da viagem é só dar uma olhada no flickr do João:
http://www.flickr.com/photos/joaomartinho
e podem falar conosco diretamente no nosso email: paiva.ana@terra.com.br e fer.martinho@terra.com.br



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Sobre o Blog  


Fernando Martinho e sua mulher Ana Paula, ambos fotógrafos, contam as aventuras e os desafios de viajar pela América Latina com um bebê de dez meses na mala.
   
 
 


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