09/02/2008
Mi Buenos Aires querida

Nosso vôo até a terra de Borges e Gardel foi exaustivo. Saímos de Caracas, fizemos escala em Manaus e seguimos para Guarulhos onde tivemos que trocar de aeronave e seguir para Buenos Aires. Foi o dia todo de viagem, mais de dez horas de vôo. Em São Paulo,enquanto esperávamos nosssa conexão, deu uma vontade de dar um pulo em casa para ver como andam as coisas. Bateu uma sensação estranha de estarmos tão perto e ao mesmo tempo tão longe da nossa realidade paulistana. Enfim chegamos a capital portenha de noite e demos sorte de conseguir vaga num hostel que fica em um casarão colonial bem no coração de San Telmo, a meca do tango. Nunca tinha vindo para cá no verão. Está fazendo um calorão que até lembra o Rio de Janeiro. Ficamos um dia de molho, para recuperar as forças, só comendo,dormindo e lendo. No dia seguinte saímos para bater perna. Andamos muito por aqui, a cidade está cheia e vibrante. Aqui o João já caminha em volta do quarteirão feliz da vida e fica bravo se o pegamos no colo. Vai falando e sorrindo para todo mundo pelo trajeto, uma simpatia. Ontem paramos no fim de tarde para tomar uma cerveja e olhar os dançarinos de tango na praça Dorrego e o pequeno aprontou. Assim que o garçom colocou as duas canecas de chopp na mesa, ele esbarrou em uma e me deu um banho de meio litro de Quilmes gelada. Lavou a alma. Depois ficou hipnotizado com o tango que rolava ali na nossa frente. Acompanhou, muito concentrado, cada passo certeiro do casal que dançava, durante um tempão. Quando se encheu foi perseguir pombos, seu esporte preferido. No nosso hostel ele já é popular, um monte de gente passa pelo nosso quarto chamando seu nome. Anda se esbaldando com as maravilhosas frutas argentinas, adorou especialmente as peras, ameixas e pêssegos. Algumas vezes que olho para ele percebo como está ficando mais menino e menos bebê. Passa rápido nosso tempo...


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16/02/2008


Mais Buenos Aires...


Em poucas cidades ficamos mais do que quatro ou cinco dias. Em uma viagem como essa há muitas coisas, lugares para conhecer e por mais que pareça estranho, sempre falta tempo... Na última semana não conseguimos pensar em outra coisa a não ser em explorar a linda Buenos Aires. São muitas as possibilidades e por onde andamos nos encantamos. João adorou ficar mais livre e andar sozinho pelas calçadas. Todos davam risadas e ele seguia sempre em frente, muito confiante, com seus bracinhos um pouco levantados para ter mais equilíbrio, mas mesmo quando caía levantava em seguida e continuava seu caminho. Agora ele já quer comer sozinho e fica pescando a comida no prato com o garfo. Quando consegue fica todo orgulhoso e faz alguns malabarismos para levar até a boca e de um jeito muito particular - uma técnica que ele desenvolveu e aprimora a cada dia – ele come, depois olha para a gente e ri feliz. A cada dia que passa percebo como ele está cada vez mais independente. É louco, porque ele tem apenas um ano e três meses, mas fico pensando como criamos nossos filhos para a vida e nada além disso... E mesmo `eles muito pequenos já tem suas preferências e fazem suas escolhas o tempo todo. Sabemos que a volta está próxima, apesar de ainda não termos marcado uma data específica. Todos nos perguntam quando chegamos e ainda não sabemos direito, mas temos a sensação de que um dos nossos sonhos foi muito bem realizado. Agora já estamos um pouco cansados, todos nós e inclusive o pequeno viajante que dorme ao meu lado e já são mais de 11 da manhã... Pensar em terminar a viagem em Buenos Aires é como concretizar um projeto da melhor forma possível. Na verdade, já estamos com saudades de tudo, da arquitetura colonial, da praça de San Telmo e de todo o bairro, da música nas ruas, do tango e da leveza de sua dança (contraria `as letras tristes e melancólicas), do calor que pegamos, do sanduíche delicioso de churrasco do mercado , de todos do nosso albergue, da gentileza de todas as pessoas que conhecemos, das ruas de dentro de La Boca que mostram a autenticidade do bairro (diferente do clima turístico do colorido Caminito), das ruas arborizadas de Recoleta e de seu sofisticado cemitério, das lojinhas descoladas de Pallermo, do centro, do lomo SENSACIONAL do restaurante Desnivel (a melhor carne que já comi em toda minha vida), dos sorvetes cremosos e deliciosos, da pizza do Mi Tio, que pela primeira vez nos sentimos tão bem servidos como em Sampa, dos vinhos, de todos os parques e praças bem cuidadas, da ponta de estoque da Puma, que é “ponto de encontro” dos brasileiros, rrrrrssssssss, de todo o charme do Café Tortoni, dos nossos tão queridos amigos Du e Mari que encontramos depois de quase dez anos e foi incrível como que o tempo não mudou em nada nossa amizade, a forma de se sentir `a vontade durante as conversas, parecia que estávamos na faculdade e que tinha visto meu amigo na semana anterior, muito especial! Enfim, são muitas as lembranças, poderia ficar listando durante dias..
Depois dessa semana intensa decidimos seguir viagem, mas guardamos parte da nossa bagagem em Buenos Aires, pois queremos voltar e ficar mais alguns dias antes de partir.


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17/02/2008
Barcos, mosquitos e parrillas em Tigre

Dormimos muito e acabamos saindo tarde para Tigre. Na noite anterior tivemos uma das poucas noites boêmias da viagem. Ficamos ouvindo até de madrugada uma francesa que cantava divinamente com seu acordeom. Pascale era profissional, tinha uma voz linda e estava viajando pela américa do sul tocando e cantando em bares. Tivemos sorte em assistir o pequeno show no terraço do hostel. Estava uma linda noite de verão com céu estrelado. Depois ficamos amigos, ela nos deu de presente um cd seu e gravamos uns cds com música brasileira para ela. Finalmente depois de guardar mais da metade da nossa bagagem(que está ainda maior depois das compras em Buenos Aires) no hostel conseguimos partir.
Tigre é uma cidadezinha linda no delta do Rio da Prata. Viemos de trem numa viagem de pouco mais de uma hora, que cruza os subúrbios de Buenos Aires. Aliás, como essa cidade é européia, até os subúrbios são lindos e já na saída da maravilhosa estação Retiro(toda em ferro fundido e estilo inglês) se tem uma sensação de viajar pelo velho continente. Dentro dos vagões há de tudo e a sensação está mais para Central do Brasil. Vendedores ambulantes, pedintes e até gente cantando em troca de umas moedas. Quando chegamos, a cidade estava lotada. Tigre é o balneário mais próximo de Buenos Aires e é invadida nos fim de semanas e nas férias. Muita gente vem passar o dia e fazer os passeios de barco pelo Delta ou se divertir no parque de diversões e no cassino. As praias daqui são um pouco sem graça, se comparadas com as do Brasil. A cidade tem um certo ar aristocrático, com seus diversos clubes de remo e mansões na beira do rio. É muito bonita e vale uma visita mais demorada. Ficamos em um hotel de frente para o mercado de frutas na beira do rio. A dona do hotel ficou apaixonada pelo João e ele por ela. Aqui ele ficou fascinado com o vai e vem dos barcos. Adorou os antigos e lindos barcos a remo de madeira, ficou horas brincando com os que estavam atracados no cais. Passeamos muito pelas ruas super arborizadas e pelo terminal fluvial. As ilhas do rio são cheias de pousadas e chalés, mas decidimos ficar longe para poupar o João dos mosquitos. Estamos mais carnívoros que nunca, desde Buenos Aires não conseguimos resistir as deliciosas parrilladas. Daqui vamos tomar um barco e cruzar o Rio da Prata em direção ao Uruguai(onde provavelmente continuaremos carnívoros!!).

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18/02/2008
Simpatia em Carmelo, enfim Uruguai !!



Queríamos ir para Colônia do Sacramento, no Uruguai, mas perdemos o barco. Nossa opção seria dormir mais uma noite em Tigre ou pegar o último barco do dia para a cidade de Carmelo. Achamos o nome simpático e nos informaram que de lá daria para tomar um ônibus até Colônia. Carimbamos os passaportes e embarcamos num enorme catamarã. Era um barco bem confortável com ar condicionado e bar. Não estava muito cheio e pudemos ocupar uma fileira de assentos inteira. O João adorou viajar em sua própria poltrona, foi sentado todo esparramado, se sentindo um rei. A viagem é linda, cruzamos o delta do Rio da Prata, passando por pequenos canais. Fomos tomando uma cerveja uruguaia e admirando a bela paisagem. Adormecemos e quando acordamos já estávamos no porto de Carmelo, cheio de gente nas praias e iates ancorados. Na aduana e imigração todos foram bem amigáveis tentando dar boas vindas em português. Me senti um pouco chegando em casa. Depois de mais um carimbo de um pais diferente no passaporte, saímos caminhando pela avenida da beira do rio. A cidade é bem pequena e linda, toda bem cuidada. Tem poucos turistas estrangeiros e muitos uruguaios em busca de sol. Todos circulam de bicicletas e motonetas. Fomos logo tomar o ônibus para Sacramento, mas só teria um as dez horas da noite. Assim decidimos ficar um dia e curtir a tranqüilidade bucólica do lugar. O tempo aqui é outro, parece que tudo acontece mais devagar. O João ficou feliz com a paz local, em nosso passeio caminhou muito. Enquanto comia uma maçã raspada na pracinha, ficou amigo de umas crianças que estavam brincando. Acabamos dormindo em um hotel no centro e mais uma vez nosso pequeno conquistador caiu nas graças da recepcionista. Ele tem batido o recorde em horas de sono, aqui chegou a dormir mais de dez horas seguidas. Está um dorminhoco. Ainda saímos para jantar e tomar mais umas deliciosas cervejas uruguaias. Em São Paulo pagamos uma fortuna por elas e aqui custam pouco mais de um dólar. Vale a pena fazer essa viagem para o Uruguai via Carmelo.Tudo ficou ainda melhor com o bom humor e simpatia dos uruguaios.


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19/02/2008
Bela Colônia do Sacramento

Chegamos em Colônia do Sacramento e foi um pouco difícil achar hotel disponível. Demos sorte de tomar um táxi com um motorista bem legal(meu xará), que nos levou para procurar hotel e conversava muito bem em português. Conseguimos um quarto no Albergue de Español, que fica em um casarão colonial lindo, com um pátio interno cheio de árvores e redes. Parece uma Babel, viajantes de toda parte do mundo. O João já fez o maior sucesso com uma chicas argentinas e uns franceses. Está fazendo um calor enorme e com a proximidade do rio, a umidade lembra até a amazônia. A cidade está cheia, no auge do verão. Colônia foi fundada por colonizadores portugueses e mais tarde tomada pelos espanhóis. A cidade é maravilhosa e a bela arquitetura colonial nos é bem familiar. O centro histórico fica numa península que avança pelo Rio da Prata, nos dá a impressão de estar numa ilha. Aqui o silêncio só não é maior porque as maritacas não deixam. A tranqüilidade está estampada no rosto dos moradores. Nem os muitos turistas com quem esbarramos o tempo todo pelas ruelas tiram o sossego do lugar. É um lugar perfeito para relaxar. Nosso albergue tem internet e bicicletas de graça. Estamos pedalando muito por aqui, é tudo plano e as distâncias são curtas. Depois de Punta del Leste e da capital, aqui é o destino preferido dos turistas que visitam o país. Muita gente vem só passar o dia aqui e volta para Buenos Aires, mas Colônia merece uma visita bem mais demorada e relaxada. Há muito o que fazer por aqui. Ótimos restaurantes e bares. Lojinhas de artesanato. Se pode até alugar aqueles carrinhos de golf e scooters para passear ou simplesmente sentar para tomar um sorvete e assistir o divino pôr do sol no espelho d’água do Rio da Prata. O João, apesar da irregularidade dos centenários paralelepípedos, caminha muito pelas ruas daqui e já ensaia até umas corridas. Vai caminhando e seguindo os cachorros que cruzam seu trajeto. Nosso pequeno viajante está cada vez mais com cara de menino travesso, anda aprontando todas. Outro dia se enfiou dentro do armário do nosso quarto e ficou lá quietinho escondido. Depois do susto, quando o achamos ele ria sem parar. Um moleque!

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21/02/2008


Segredos de Colônia de Sacramento



Colônia tem vários segredos escondidos, muitos cantinhos que só se conhece procurando bem. Outro dia alugamos uma lambreta para explorar melhor essa cidade cheia de encantos. Pegamos a estradinha do litoral que percorre todas as praias mais próximas e fomos até a plaza de toros. A vista que se tem do centro histórico dessas praias é maravilhosa. Depois fomos conhecer as praias mais afastadas. Ferrando tem a areia branca e fininha, é cheia de sombra e tem um restaurante ótimo com churrasco uruguaio feito no carvão. Ficamos horas brincando com o João na beira d’água. Ele se divertiu, mergulhou, catou pedrinhas e caminhou muito. Depois dormiu profundamente na sombra de um enorme pinheiro. Quando acordou seguimos para o centro para almoçar. A comida daqui é muito boa, os restaurantes são de primeira, um luxo pra quem passou pela Bolívia e Venezuela recentemente. De barriga cheia fomos para a praia de Calabres, mais afastada e deserta. Escolhemos uma rota alternativa de terra para desviar da estrada principal, pelo meio de um bosque lindo de pinheiros, com algumas casinhas, parecido com aqueles das fábulas infantis. A motoca agüentou firme e o João gargalhou com os solavancos do caminho. Até dormiu na moto com o vento delicioso. Depois de rodar quase meia hora, quando começamos a desconfiar que estávamos perdidos, encontramos a praia. Realmente é um segredo muito bem guardado. Linda e com apenas alguns banhistas aventureiros. Conversamos com um uruguaio, que nos disse orgulhoso que a tranqüilidade do lugar era algo impagável e que para crianças não havia lugar melhor. Ele estava certo, o João se esbaldou de tanto brincar. Aqui no Uruguai me chamou a atenção como as velhinhas são modernas e descoladas. A Ana conheceu uma senhora de oitenta anos, natural de Colônia, que passa o ano viajando entre montevideo, Punta del Leste e Buenos Aires. Divorciou-se do primeiro marido, teve mais dois, trabalhou com cinema e andava de moto. Vimos muitas chegarem na praia todas produzidas. Cadeira e óculos de sol, maiôs estampados e os inseparáveis bomba e cuia de chimarrão. Aliás por todo lado que se ande, desde Buenos Aires, praticamente todas as pessoas carregam em bolsas próprias, seu kit gaúcho: garrafas térmicas, cuia, bomba e o mate preferido. Andar pelas belas ruas de Colônia é uma viagem no tempo. Os casarões centenários são lindos e bem conservados, há muitos carros, motos e bicicletas antigas circulando, como num filme. As pessoas botam as cadeiras nas calçadas, típico de interior, para assistir o fim de tarde. Antes de devolver a scooter ainda passeamos pelo centro histórico e tomamos uma cerveja num bar de frente para o rio. O João chegou no hostel exausto e tomou um banho meio dormindo. Ainda teve forças para comer um pêssego e apagou esparramado na cama. Deve ter tido muitos sonhos essa noite, depois de tantas emoções.


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23/02/2008
Charme de Montevideo



Chegamos na charmosa Montevideo e no primeiro dia saímos andando pela cidade sem mapas, guias ou indicações, como sempre fazemos quando chegamos em um lugar novo. Na primeira praça que entramos ficamos maravilhados com um velhinho que tocava violino sentado em um banco. O João, que adora música, ficou hipnotizado pelo som do violino. Conversamos com o simpático senhor e seguimos para o centro antigo, onde tomamos um sorvete para amenizar o forte calor. Os prédios históricos daqui são lindos e em toda esquina há um museu ou centro cultural. As artes no Uruguai recebem um merecido respeito. Há ótimos músicos, pintores e escritores que são desconhecidos no Brasil, apesar da proximidade. Quando chegamos no centro histórico comentamos que era muito parecido com Cuba, apesar de não conhecermos a ilha. Coincidências acontecem. Logo passamos por uma banca de jornal vi a foto do Fidel estampada em todas as capas. Pensei que ele tinha morrido. Comprei correndo um Clarín e li que ele tinha só renunciado, para espanto dos cubanos. Lamentamos não conhecer Cuba com o comandante no poder, essa viagem sempre esteve nos nossos planos. Conheceremos na era pós Fidel, provavelmente bem diferente com as reformas inevitáveis. Andamos muito e a Ana achou uma loja de roupas em liquidação. O João me deu uma canseira e quase desmontou a loja enquanto ela experimentava milhares de vestidos. Tem feito dias lindos, com um céu azul impressionante. Tomamos um ônibus que segue pelas praias daqui e descemos numa que nos pareceu ser bem bonita. Não havia sombra, nem ninguém alugando barracas, assim nos refugiamos debaixo da guarita do salva-vidas. O João estranhou a água salgada daqui, depois de tanta água doce em Colônia, Tigre e Carmelo. Até recusou mamar depois que a Ana tinha mergulhado na água do mar. Uma raridade! Sempre foi um guloso para mamar, mesmo com água salgada de mar. A qualidade de vida aqui em Montevideo é de dar inveja para quem mora em São Paulo. Mesmo sendo a capital do país, existe uma tranqüilidade de interior. E ainda estamos hospedados no centro da cidade. Parece que é sempre domingo por aqui.
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Fernando Martinho e sua mulher Ana Paula, ambos fotógrafos, contam as aventuras e os desafios de viajar pela América Latina com um bebê de dez meses na mala.
   
 
 


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